1 de maio de 2010

Nomada.

Encontrei.
Fui para lá.

16 de setembro de 2009

Voltarei noutro lugar.



f i m (ponto).

9 de agosto de 2009

Além Fronteiras (ou o outro lado do retrato)

Somália - base do Acampamento Médico do Nordeste,
783º Dia:

No decote do Vale de Berbera, houve um tempo em que um enorme lago nutria a região de Dohmma. Hoje, a seca semeada no solo árido e a temperatura insuportável do ar obrigam a que a água se esconda sob a terra pó de tijolo. A paisagem testemunha a ausência de chuva e a escassez de alimento - árvores de galhos duros com espinhos em vez de frutos e arbustos rasteiros despidos de qualquer folhagem, exibindo o seu esqueleto de ramificações incendiadas pela coloração vermelha e castanha. Uma fortaleza rochosa nas antigas margens abriga trabalhadores, gerações de corpos negros e mirrados que se entregam de rosto caído à única vida que têm disponível. Todas as manhãs, iluminados pela luz prateada que antecede o nascer do Sol, descem as encostas escarpadas, lembrando demónios perdidos cujas formas, há muito desumanizadas, assentam num tripé de raízes de coca, carne seca e escaras que não cicatrizam, e dirigem-se aos poços escavados no fundo liso e cortado do antigo lago. “Chansons du travail”, compostas por palavras sopradas na língua mãe – o Maasai - que, misturando-se com o ruído de pás que dissecam o solo insípido, marcam o ritmo exigido para um trabalho síncrono na procura e manutenção da pouca água que resta nesses poços a que ancoraram a vida.

Recordo o dia em que conheci Márhak-Oong. Magro, de cabelo branco ralo, descascava, com as unhas desproporcionadas, bagas pálidas e desprovidas de sumo. Desviou o olhar do horizonte agreste e fitou-me sem qualquer expressão no rosto. Os seus olhos não reflectiam curiosidade, medo ou sequer interesse – dois botões negros e baços, sem reflexos, sem fé. Trazia a carne dos músculos agarrada aos ossos pelos farrapos de couro animal e redes de algodão cru com que escondia a desnutrição do corpo imundo como a peste.

Tudo correu mal. O tom do objectivo com que desculpámos a realização deste projecto era demasiado agudo. O preço era muito alto, mais do que imaginei. Quando cheguei, trazia a mochila carregada de esperanças e a miragem de observar, corrigir, ensinar e cuidar, plantar um novo destino nos resquícios de alma desta gente. No entanto, com o desenrolar dos dias, a criação de um posto de primeiros socorros, uma mera maqueta de hospital local, revelou-se um fracasso. O caos que aqui encontrei há quase dois anos era enorme. Tão profundo e desordenado que julgo não o conseguir colocar nesta carta. Era vermelho, negro e corrosivo. Mas dantes tínhamos água, conseguíamos viver aqui. Havia riso, crianças e um povo. Agora... nenhum olhar, resta-nos tentar sobreviver nesta terra doente e desidratada.
Tenho a saliva coagulada, uma papa azeda que não me permite sequer pensar em engolir. À medida que o sol sobe, alinhando-se verticalmente com a areia branca virgem de sombras, sinto borbulhar a pele, qual papel queimado e rasgado pelo simples toque da pouca vaselina que nos resta. Vive-se numa agonia que me entorpece a visão fantástica que tinha de África. Nada mais errado. As fotos a preto e branco e os relatos porque me apaixonei, horas a fio na biblioteca de Lisboa, nada valem mais do que cinzas e mentiras perante a experiência de (con)vivência nesta terra não-lógica e inabitável onde o Homem, o ser humano como espécie, caminha inevitavelmente para a extinção…

Deitado e paralisado pela polio, uma epidemia imensa que aqui é lei, fecho as pálpebras e regresso à nossa cama, aos meus apontamentos e às tuas mãos… (Silêncio).


(fotografia: "Red Cross in Africa")


30 de julho de 2009

A Marcha dos Pinguins

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29 de junho de 2009

Comer sobremesa sozinho faz mal aos rins

Sentei-me confortável no meu banco tosco de pau negro do Brasil. Adquiri-o a um velho fazendeiro do Nordeste, numa pequena vila que tocava a linha da fronteira com a Venezuela. Maciel era um homem simples, era carpinteiro de profissão e cozinheiro no hotel onde a pedi em casamento. Mas não é dessa outra altura que quero escrever. Sentei-me ligeiramente encurvado com ambos os pés assentes no chão do passeio, pousei uma mão sobre o livro que servia de apoio à folha de papel cavalinho amarrotada nas pontas e, com um pedaço de carvão cru na única mão que me obedece, preparei-me para justificar os 2 dólares que com indiferença a mulher que usava um justo vestido de cetim me estendeu em troca do seu retrato. Preparava-me para riscar o primeiro traço quando me apercebi que este era já um movimento automático, uma repetição memorizada.

Hoje comemoro dez anos de artista de rua clandestino, acumulo meses de pele queimada e enrugada debaixo da barba gasta pela falta de abrigo certo. Parece que o tempo não passou desde o dia que sai de tua casa para comprar tabaco e não te encontrei quando voltei. Um copo de vinho meio vazio. Tinto, seco, de lágrima espessa no cristal marcado com o vermelho dos teus lábios. Imortalizar os traços do rosto de tantas outras mulheres, concentrado numa só, dói tal e qual como nesse primeiro dia da minha vida de gato vadio. É uma dor crónica que me acompanha como uma sombra, gastando-me, insensível a doses exageradas de morfina. O tempo perdeu as referências, tem sido sempre de noite. Estaria tudo da mesma cor, a mesma infecção, não fosse o caruncho a corroer-me as articulações. Perdi o carro, pus a vida a saldos e cuspiram-me do emprego. Na Medicina do Trabalho chamaram-me de louco, velho perdido, uma alma abandonada. Fui inútil no nosso casamento e depois de o enterrar fracassei novamente. Endividado, apostei tudo numa jogada só, acreditando que eras tu a dama de copas e eu o valete de espadas. Tive a certeza de ganhar essa mão. Não só perdi, como não te encontrei.

Ainda não reparou mas hoje veio ela ter comigo. No paredão, por detrás do corpo que aguarda com um sorriso estereotipado permanente, pais e mães arrastam os pés no chão, baloiçando os braços inertes ao longo do tronco enquanto as crianças, no seu passo trapalhão, correm perseguindo sonhos através da vida até que, numa tentativa de maior alcance, caiem enroladas no pavimento e tingem os joelhos esfolados de alcatrão. Como devem estar crescidos o João e a Mafalda. Com um arranhão de amargura interior, devolvo o olhar à tela em branco e, de seguida observo-a com saudade durante 3 segundos, minha cliente e única mulher que me amou e que me faltou. Devagar, como se a acariciasse, dispo-lhe o rosto mentalmente. Responde-me com um olhar tímido, entrelaçando os dedos em frente dos joelhos, num gesto de desconforto envergonhado. Igual ao de 10 anos atrás.

Parece que o tempo não passou desde o dia que sai de tua casa para comprar tabaco e não te encontrei quando voltei.

Enquanto te desenhava, falavas-me sobre a construção da tua casa, ias morar na Malveira com os miúdos. Fabulavas passeios de bicicleta até ao Guincho e quiçá comprar um cão. Os teus olhos brilhavam, o teu corpo esticava-se e a tua voz profunda vibrava eloquente. Nos teus lábios, palavras segredadas em francês no meu ouvido. Um arrepio na espinha e um sorriso atrevido. Do outro lado da tela eu não te ouvia. Sonhava, reconfortava-me na tua presença mesmo sabendo que não me reconhecias. Amor sem palavras, uma mesma língua muda. Quis desenhar-te comigo, recomeçar tudo, outra vez. Sair daqui e ir viver contigo para Paris, cruzar o Sena e ensaiar um beijo no Hotel de Ville. Ensinar-me-ias a dormir e, num casulo de lençóis de seda, viveríamos para lá dos cem anos. Espreguiço-me com o teu cheiro adormecido na minha pele, enroscas em mim o teu tom feminino, como que a pedir mais cinco minutos. Finges ter frio e eu resguardo-te sentindo o sussurrar da tua respiração no meu peito… Assim seria se tivesse a coragem de te dizer quem sou e me levasses para casa.
Entrego-te o retrato, na esperança que percebesses porque te desenhei 10 anos mais nova. Na expectativa que tivesses reparado que não precisei de olhar para ti e abrisses a gaveta de que perdi a chave.
- Espera! Onde vais?
- Não faças isso, não me agradeças… volta!... Merda que me dói os rins...


29 de maio de 2009

História de uma Geisha

Esta é a história de uma Geisha.

Uma Geisha que tal como todas as outras japonesas vivia no Japão. Mas ao contrário de todas elas, esta era especial. Vou deixar que ela vos conte porquê...

O meu nome é Yamamoto ("base da montanha").
Nasci numa das únicas "cidades-flor" (hanamachi) que enfeitam a base do Monte Fuji. A minha mãe suspirou o último sopro de vida para me oferecer ao mundo. Não sobreviveu à febre durante o parto. Em 1944, quando o meu pai partiu para a guerra, fui levada para uma cidade longe da minha, para lá da linha onde o céu azul se verga e toca o chão. Disseram-me que ia viver e ser criada numa okiya. Era a primeira vez que via uma casa tradicional Geisha. Cada divisão fechada apenas em três arestas, permitia à luz que entrava pelas janelas de papiro, percorrer os corredores de linhas rectas, misturando-se com o cheiro a incenso que se perdia na cor dos tufos de ervas e pétalas de sakura que tornavam macio o tapete no jardim interior. Senti uma felicidade ingénua, não sabia o que aqui estar significava, eu era ainda uma criança. Para dizer a minha idade já tinha que usar as duas mãos e o meu pai sempre me disse que o ser humano se define pelo peso do seu punho. Não sei quantos quilos de mão tinha na altura mas era apenas uma rapariga de nove anos.
Nos primeiros anos tudo parecia perfeito. Acreditava que nada era efémero e que tudo durava para sempre. Cegava qualquer homem, dançando e retorcendo-me em câmara lenta com a cintura cercada pelas suas mãos imobilizadas, desejosas de me acariciar o peito e as coxas no chão encerado. Despedia-me com um quero-te ver sibilado entre lábios carnudos, mas se me olhassem com mais atenção e menos desejo, notariam por detrás do leque de bambu, uma linha trémula acima do queixo que denunciava um riso interior, troçando e carregado com cinismo. Sempre senti, embora fingisse não ver, que durante as noites que passava alimentando a minha vaidade com uma gula insaciável e viciante, rindo e cantando para eles, elogiada e desejada até ao desespero, eu dançava, para sempre, sozinha. Recusava entender que todo o princípio de frase tem um ponto final e que num segundo tudo cai por terra para se tornar pó. Apontei o dedo, chamei louco a quem dizia que nessa tempestade de areia o que suporta o peso do corpo é a melodia de um coração cujo ritmo não é mantido apenas por aurículas e ventrículos. Fui ignorante quando ri de quem me avisou que sem essa música somos animais e não temos peso suficiente na alma que impeça o sermos varridos pelo vento do esquecimento. À medida que os anos envelheceram, os dias tornaram-se mais frios e arrastaram-se até ficarem pálidos. Sem uma gota de sangue quente, as minhas artérias tornaram-se cordas de aço, estáticas e sem vibração. Hoje, olho o espelho de marfim que guardo no quarto e vejo como este poder delirante, esta supremacia num mundo deserto, não me tira as rugas do rosto nem me estica as peles derretidas na parte de trás dos braços. Estes braços que nunca souberam amar. Houve dias que conheci o verbo através de sessões solitárias de adaptações cinematográficas no Kinosaki Saloon, onde rodavam os filmes americanos. Mas tal como nas palavras do poeta anónimo, amo-te não é I love you…

Esta máscara de pó-de-arroz e lábios encarnados com olhos recortados por um traço felino de carvão negro escavou raízes profundas na minha carne. Distorceu a figura humana, bebeu do meu licor e gastou-me, deixando-me reduzida a uma beata fumada. Foi assim que contraí esta doença mortal: Incapacidade de amar. Hoje manifestou-se na sua forma mais agressiva, sem tratamento esqueci o prazer de rir...

3 de maio de 2009

O que se passa do outro lado do Mundo

Nipónico: do Japão; Japonês. (Nippon, «Sol Nascente» + -ico).

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( fotos de j.martins )

24 de março de 2009

What the...??!

Quando me perguntam, é disto que me lembro.

Boa fita.

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(in Pulp Fiction)

18 de março de 2009

Compadres, Comadres e Cobardes

Os domingos são dias carregados de melancolia, sem jeito, sem tónus. Tirei um cigarro do bolso para entreter alguns minutos e deixei-me ficar. Observei a indiferença com que o tempo se deixa dissipar na cinza de um bafo de fome. Não me lembro da última vez que comi uma refeição digna de um adjectivo. A comida perde o sabor quando se reduz a uma rotina fisiológica. Somos apenas Homens de bata branca e também temos fome. Não somos anjos nem demónios, somos humanos e também amamos e pecamos (às vezes pecamos por amar). Com um gesto subconsciente arranquei uma olhadela às páginas do meio de um jornal já fora de prazo. Em letras gordas lia-se: “Capricórnio: Dia de decisões arriscadas que exigem a força e o peso determinado no alinhamento de Marte. Não hesite, ande em frente. O seu número da Sorte: 17.” – Que monte de treta! O ruído monocórdico da sibilância pronunciada na memória do número atinge-me com um golpe mudo e sinto um arrepio na espinha que me humedece os olhos, trazendo à superfície essa lembrança entorpecida.

Há um corpo na enfermaria. Não tem um nome, tem um número, é o cama 17 que está morto. Merda.

Podia ter vinte, trinta ou sessenta anos, não interessa. O corpo pálido estendido nos lençóis brancos, traduzia o estado avançado do cancro que dela se alimentava. Escondido no pâncreas bebia do seu sangue, fragilizando o fio que a suspendia acima do esquecimento. Apesar da situação percebia-se como antes do crime tinha sido um corpo esbelto, desenhado e bem formado. Pude imaginar como se movia leve no salão de baile, sorrindo quando lhe elogiavam com um beijo o longo cabelo outrora preto de carvão. Mas nada disto importa porque entre ela e a vida se abria agora um vazio inconsolável. Apesar de se refugiar no seu silêncio carregado de estoicismo, as lágrimas doces que vertia não conseguiam esconder a penitência que era para ela a simples arte de respirar. Com os dedos percorri e li as marcas da dor nos sulcos do seu rosto engelhado. Senti as mãos tremer e não tive forças para abraçar o peso do seu sofrimento. Um murro no estômago fez-me subir a bilirrubina à boca (verde e azeda) tornando mais dura a nostalgia raivosamente negada cada vez que os seus olhos me suplicavam um pedaço de milagre que a ajude a adormecer. Tive medo e, com o gesto cobarde de quem foge com o cu à seringa, apertei-lhe a mão para depois a soltar, na única linguagem que não mente – calor, força e tremor. Fechei os olhos e sem nunca olhar para trás afastei-me com passos largos, achando ser a melhor forma de rejeitar o medo. Quis retroceder mas as pernas não me obedeceram e percorri a aragem sufocante que enchia aquele corredor frio, vazio de objectos. Um erro de combinações embrionárias cravou no código genético humano a mecânica instintiva de fugir para a frente.
Quando dei por mim, encontrava-me só nesta sala escura, perdido num labirinto de emoções, afogado no silêncio profundo da água estagnada. Sentado de pernas cruzadas limitei-me a apertar os joelhos contra o peito com uma força desesperada. Sentado neste mesmo canto senti o bater daquele coração cansado no meu peito.

Ainda hoje o oiço pulsar enquanto escrevo… te-cla…a…..te..-..cla……a….te…-…cla… até ao silêncio de uma linha encarnada traçada no monitor, desfocada pelas lágrimas salgadas que me secam a pele envelhecida, dez anos depois, cada vez que recordo aquele corredor frio e vazio de objectos…

Há um corpo na enfermaria. Não tem um nome, tem um número, é o cama 17 que está morto. Merda.


10 de março de 2009

Triunfo dos porcos

Em jeito de conversas de café e um biscoito, o texto nasceu de palavras rabiscadas em cima do joelho num dia que fechou a cortina com um diálogo na esplanada:

outro: Bem, essa chefe é um animal!
ooutrooutro: Animal não sei... Mas deviam-na atirar aos porcos...
outro: Quiçá partir-lhe um braço.
ooutrooutro: E depois atirá-la aos porcos!

FIM