Álvaro.
Velho e só. Um vidro estilhaçado.
Velho e só. Um vidro estilhaçado.
Traz o rosto vincado com os sulcos profundos e eternos da solidão. A miséria tatuada no olhar cinzento, a única cor que conhece. Cinzento.
Não se lembra de acordar sem ser pescador. Foi o fado que lhe semearam. Sem perguntas, sem respostas. Porque sim. Pela mesma razão pela qual ela foi embora num momento tão curto como a palavra adeus. Porque sim.
No quarto sente-se o cheiro a beata de cigarro, sugada até ao último bafo de dor. Tudo mudou. Não ouve as tábuas ranger com o peso dos seus passos finos nem sente rodar a maçaneta amarela da porta de madeira que abre para o quarto, agora vazio. Apenas com o seu corpo seco, e o dela ausente. Não lhe sente o cheiro. Acorda com a ideia que ainda é noite. Aquela mesma noite. Há-de sonhar para sempre com essa data. Mesmo quando já não lhe conhecer o sabor nem o rosto, há-de reter a noite que o paralisa no silêncio. Desde que lhe cuspiu essa palavra traidora - adeus - que não partilha a voz com ninguém. Silêncio. Apenas o murmúrio fúnebre do rio que se arrasta lá fora. Num gesto demorado, com a lentidão de quem não tem motivos para se apressar, despe a cana de pesca com os dedos franzinos e dormentes, tingidos pela acidez que transporta no peito. A azia da amargura.
A caminho do rio, sem expressão no passo murcho, corta as cinzas deixadas pela tempestade no campo de rosmaninho. Deixa-se levar, perdido, ao ritmo do pensamento cavado nos olhos encovados - Saudades de ti. Empurrado pela rotina desce a encosta em direcção ao barco ancorado. Ao passar no carvalho abandonado, despido de folhas e cujo único fruto é, agora, um baloiço quebrado, pareceu-lhe ouvir o seu riso. Pareceu, desejou-o.
No rio, há muito que não nadam peixes. Há muito que o rio está morto. Quando o anzol fere a água, o rio não se queixa, não se manifesta, está morto. Vistos de fora, o rio, o carvalho seco e o pescador compõem a imagem de uma fotografia inerte, esquecida numa gaveta qualquer.
Com a mão trémula e fria varreu o pó que lhe dava o tom amarelado. Colocou os óculos a fim de compreender melhor o retrato. Ao fitar o homem que chorava no barco viu que o pescador era ele e as suas lágrimas tinham o teu nome pintado. Saudades de ti…

Foto de: National Geographic




5 comentários:
Oi JM. Penso que a par dos feriados, aniversários e outras datas comemorativas, haverá mais um dia a juntar ao calendário festivo: a comemoração do 21 de Novembro! (ou do dia 20 depois das 18:00)
Ainda bem que a vida regressou em grande a este cantinho da net. Parabéns pelo post, pela sobrevivência e resistência destes meses de clausura e que... venham mais textos;)
Bjs e boas férias,
Isabel
Voltaste em grande ! Valeu a pena a espera :)
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é o amargo e o bonito de um pescador.
bom regresso.f
é bom ter-te de volta!
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