Esta é a história de uma Geisha.
Uma Geisha que tal como todas as outras japonesas vivia no Japão. Mas ao contrário de todas elas, esta era especial. Vou deixar que ela vos conte porquê...
Uma Geisha que tal como todas as outras japonesas vivia no Japão. Mas ao contrário de todas elas, esta era especial. Vou deixar que ela vos conte porquê...
O meu nome é Yamamoto ("base da montanha").
Nasci numa das únicas "cidades-flor" (hanamachi) que enfeitam a base do Monte Fuji. A minha mãe suspirou o último sopro de vida para me oferecer ao mundo. Não sobreviveu à febre durante o parto. Em 1944, quando o meu pai partiu para a guerra, fui levada para uma cidade longe da minha, para lá da linha onde o céu azul se verga e toca o chão. Disseram-me que ia viver e ser criada numa okiya. Era a primeira vez que via uma casa tradicional Geisha. Cada divisão fechada apenas em três arestas, permitia à luz que entrava pelas janelas de papiro, percorrer os corredores de linhas rectas, misturando-se com o cheiro a incenso que se perdia na cor dos tufos de ervas e pétalas de sakura que tornavam macio o tapete no jardim interior. Senti uma felicidade ingénua, não sabia o que aqui estar significava, eu era ainda uma criança. Para dizer a minha idade já tinha que usar as duas mãos e o meu pai sempre me disse que o ser humano se define pelo peso do seu punho. Não sei quantos quilos de mão tinha na altura mas era apenas uma rapariga de nove anos.
Nos primeiros anos tudo parecia perfeito. Acreditava que nada era efémero e que tudo durava para sempre. Cegava qualquer homem, dançando e retorcendo-me em câmara lenta com a cintura cercada pelas suas mãos imobilizadas, desejosas de me acariciar o peito e as coxas no chão encerado. Despedia-me com um quero-te ver sibilado entre lábios carnudos, mas se me olhassem com mais atenção e menos desejo, notariam por detrás do leque de bambu, uma linha trémula acima do queixo que denunciava um riso interior, troçando e carregado com cinismo. Sempre senti, embora fingisse não ver, que durante as noites que passava alimentando a minha vaidade com uma gula insaciável e viciante, rindo e cantando para eles, elogiada e desejada até ao desespero, eu dançava, para sempre, sozinha. Recusava entender que todo o princípio de frase tem um ponto final e que num segundo tudo cai por terra para se tornar pó. Apontei o dedo, chamei louco a quem dizia que nessa tempestade de areia o que suporta o peso do corpo é a melodia de um coração cujo ritmo não é mantido apenas por aurículas e ventrículos. Fui ignorante quando ri de quem me avisou que sem essa música somos animais e não temos peso suficiente na alma que impeça o sermos varridos pelo vento do esquecimento. À medida que os anos envelheceram, os dias tornaram-se mais frios e arrastaram-se até ficarem pálidos. Sem uma gota de sangue quente, as minhas artérias tornaram-se cordas de aço, estáticas e sem vibração. Hoje, olho o espelho de marfim que guardo no quarto e vejo como este poder delirante, esta supremacia num mundo deserto, não me tira as rugas do rosto nem me estica as peles derretidas na parte de trás dos braços. Estes braços que nunca souberam amar. Houve dias que conheci o verbo através de sessões solitárias de adaptações cinematográficas no Kinosaki Saloon, onde rodavam os filmes americanos. Mas tal como nas palavras do poeta anónimo, amo-te não é I love you…
Nos primeiros anos tudo parecia perfeito. Acreditava que nada era efémero e que tudo durava para sempre. Cegava qualquer homem, dançando e retorcendo-me em câmara lenta com a cintura cercada pelas suas mãos imobilizadas, desejosas de me acariciar o peito e as coxas no chão encerado. Despedia-me com um quero-te ver sibilado entre lábios carnudos, mas se me olhassem com mais atenção e menos desejo, notariam por detrás do leque de bambu, uma linha trémula acima do queixo que denunciava um riso interior, troçando e carregado com cinismo. Sempre senti, embora fingisse não ver, que durante as noites que passava alimentando a minha vaidade com uma gula insaciável e viciante, rindo e cantando para eles, elogiada e desejada até ao desespero, eu dançava, para sempre, sozinha. Recusava entender que todo o princípio de frase tem um ponto final e que num segundo tudo cai por terra para se tornar pó. Apontei o dedo, chamei louco a quem dizia que nessa tempestade de areia o que suporta o peso do corpo é a melodia de um coração cujo ritmo não é mantido apenas por aurículas e ventrículos. Fui ignorante quando ri de quem me avisou que sem essa música somos animais e não temos peso suficiente na alma que impeça o sermos varridos pelo vento do esquecimento. À medida que os anos envelheceram, os dias tornaram-se mais frios e arrastaram-se até ficarem pálidos. Sem uma gota de sangue quente, as minhas artérias tornaram-se cordas de aço, estáticas e sem vibração. Hoje, olho o espelho de marfim que guardo no quarto e vejo como este poder delirante, esta supremacia num mundo deserto, não me tira as rugas do rosto nem me estica as peles derretidas na parte de trás dos braços. Estes braços que nunca souberam amar. Houve dias que conheci o verbo através de sessões solitárias de adaptações cinematográficas no Kinosaki Saloon, onde rodavam os filmes americanos. Mas tal como nas palavras do poeta anónimo, amo-te não é I love you…
Esta máscara de pó-de-arroz e lábios encarnados com olhos recortados por um traço felino de carvão negro escavou raízes profundas na minha carne. Distorceu a figura humana, bebeu do meu licor e gastou-me, deixando-me reduzida a uma beata fumada. Foi assim que contraí esta doença mortal: Incapacidade de amar. Hoje manifestou-se na sua forma mais agressiva, sem tratamento esqueci o prazer de rir...




7 comentários:
Cada palavra um segredo.
Tenho tanto inveja de ti. Mas tanta !
Conheci colegas teus em Paris (:
Fantástico texto! Gostei muito.
João,
Está muito bonito. Adorei ler.Ainda não descobri de quem herdaste esta forma tão bela de escrever. Tenho muito orgulho em ti.
Beijinhos
Uma mulher.
Aqui escreves como uma mulher... Não sei se faz sentido falar em géneros na literatura, já muito se escreveu sobre isso... Mas aqui escreves claramente como alguém que se exibiu nessas danças e que envelheceu através delas.
Empatia talvez, imaginação dirão outros.
Escreves sobre a verdadeira doença profissional. Numa área diferente também sentimos que cuidar do outro nos torna menos humanos... Fará sentido?! É como se em cada dia deixassemos um pouco do brilho do nosso olhar em cada olhar baço com que nos cruzamos.
Perder a humanidade para o outro é belo apenas na literatura.
Tememos que, sem máscara de pó de arroz, sem danças, coxas ou corpos um dia possamos sentir nas nossas rugas a incapacidade de sorrir perante o outro. A incapacidade de sorrir perante nós. A incapacidade de sorrir. A incapacidade.
"... nos primeiros anos tudo parecia perfeito..." será sempre a perfeição de cada inicio a principal responsável pelo seu final. Como em tudo na vida fica-se viciado na perfeição que só poderá existir nos primeiros anos, nos primeiros momentos, no inicio de cada momento. Presos à perfeição esquecemos o caminho, os pés a tocar o chão, a vontade de crescer. Esquecemos as mãos que traçam delicadamente as rugas na nossa face, no nosso corpo.
"Esta máscara de pó-de-arroz e lábios encarnados com olhos recortados por um traço felino de carvão negro escavou raízes profundas na minha carne. Distorceu a figura humana, bebeu do meu licor..." São as máscaras que criamos que nos vão escavando as rugas, são elas que nos secam por dentro. Tens razão.
Parabéns por mais um excelente e belo texto.
Vem visitar a (des)humanidade deste serviço. Aqui fala-se de vocês com saudade.
Até Breve
Lia
Lia: Muita coisa em comum.
Eu e o Miguel passaremos por ai.
Obrigado e um beijo.
É...sabes sincronizar as palavras.
Estou pasma.
Parabéns!
Ficamos então à espera...
beijo para vocês
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