29 de Junho de 2009

Comer sobremesa sozinho faz mal aos rins

Sentei-me confortável no meu banco tosco de pau negro do Brasil. Adquiri-o a um velho fazendeiro do Nordeste, numa pequena vila que tocava a linha da fronteira com a Venezuela. Maciel era um homem simples, era carpinteiro de profissão e cozinheiro no hotel onde a pedi em casamento. Mas não é dessa outra altura que quero escrever. Sentei-me ligeiramente encurvado com ambos os pés assentes no chão do passeio, pousei uma mão sobre o livro que servia de apoio à folha de papel cavalinho amarrotada nas pontas e, com um pedaço de carvão cru na única mão que me obedece, preparei-me para justificar os 2 dólares que com indiferença a mulher que usava um justo vestido de cetim me estendeu em troca do seu retrato. Preparava-me para riscar o primeiro traço quando me apercebi que este era já um movimento automático, uma repetição memorizada.

Hoje comemoro dez anos de artista de rua clandestino, acumulo meses de pele queimada e enrugada debaixo da barba gasta pela falta de abrigo certo. Parece que o tempo não passou desde o dia que sai de tua casa para comprar tabaco e não te encontrei quando voltei. Um copo de vinho meio vazio. Tinto, seco, de lágrima espessa no cristal marcado com o vermelho dos teus lábios. Imortalizar os traços do rosto de tantas outras mulheres, concentrado numa só, dói tal e qual como nesse primeiro dia da minha vida de gato vadio. É uma dor crónica que me acompanha como uma sombra, gastando-me, insensível a doses exageradas de morfina. O tempo perdeu as referências, tem sido sempre de noite. Estaria tudo da mesma cor, a mesma infecção, não fosse o caruncho a corroer-me as articulações. Perdi o carro, pus a vida a saldos e cuspiram-me do emprego. Na Medicina do Trabalho chamaram-me de louco, velho perdido, uma alma abandonada. Fui inútil no nosso casamento e depois de o enterrar fracassei novamente. Endividado, apostei tudo numa jogada só, acreditando que eras tu a dama de copas e eu o valete de espadas. Tive a certeza de ganhar essa mão. Não só perdi, como não te encontrei.

Ainda não reparou mas hoje veio ela ter comigo. No paredão, por detrás do corpo que aguarda com um sorriso estereotipado permanente, pais e mães arrastam os pés no chão, baloiçando os braços inertes ao longo do tronco enquanto as crianças, no seu passo trapalhão, correm perseguindo sonhos através da vida até que, numa tentativa de maior alcance, caiem enroladas no pavimento e tingem os joelhos esfolados de alcatrão. Como devem estar crescidos o João e a Mafalda. Com um arranhão de amargura interior, devolvo o olhar à tela em branco e, de seguida observo-a com saudade durante 3 segundos, minha cliente e única mulher que me amou e que me faltou. Devagar, como se a acariciasse, dispo-lhe o rosto mentalmente. Responde-me com um olhar tímido, entrelaçando os dedos em frente dos joelhos, num gesto de desconforto envergonhado. Igual ao de 10 anos atrás.

Parece que o tempo não passou desde o dia que sai de tua casa para comprar tabaco e não te encontrei quando voltei.

Enquanto te desenhava, falavas-me sobre a construção da tua casa, ias morar na Malveira com os miúdos. Fabulavas passeios de bicicleta até ao Guincho e quiçá comprar um cão. Os teus olhos brilhavam, o teu corpo esticava-se e a tua voz profunda vibrava eloquente. Nos teus lábios, palavras segredadas em francês no meu ouvido. Um arrepio na espinha e um sorriso atrevido. Do outro lado da tela eu não te ouvia. Sonhava, reconfortava-me na tua presença mesmo sabendo que não me reconhecias. Amor sem palavras, uma mesma língua muda. Quis desenhar-te comigo, recomeçar tudo, outra vez. Sair daqui e ir viver contigo para Paris, cruzar o Sena e ensaiar um beijo no Hotel de Ville. Ensinar-me-ias a dormir e, num casulo de lençóis de seda, viveríamos para lá dos cem anos. Espreguiço-me com o teu cheiro adormecido na minha pele, enroscas em mim o teu tom feminino, como que a pedir mais cinco minutos. Finges ter frio e eu resguardo-te sentindo o sussurrar da tua respiração no meu peito… Assim seria se tivesse a coragem de te dizer quem sou e me levasses para casa.
Entrego-te o retrato, na esperança que percebesses porque te desenhei 10 anos mais nova. Na expectativa que tivesses reparado que não precisei de olhar para ti e abrisses a gaveta de que perdi a chave.
- Espera! Onde vais?
- Não faças isso, não me agradeças… volta!... Merda que me dói os rins...


7 comentários:

Lia disse...

... parece que consigo sentir... estas palavras provocam-me dores nos rins e inventam-me nascentes nos olhos...

Carol disse...

Aqui, na inspiração da tua caneta, descubro o lado bom das saudades...

Aishiteru*

s disse...

bom dia :)
diz antes : "um movimento automático uma repetição memorizada faz mal aos rins e o tempo passa depressa" beijinhos vizinho,
7F

Iris_Esfenoidal disse...

Parfait!

Kahkba disse...

Adorei este texto ! Foi dos melhores qe já li (:
Faz.me um favor e não pares de escrever (= **

M. disse...

Entrego-te o retrato, na esperança que percebesses porque te desenhei 10 anos mais nova. Na expectativa que tivesses reparado que não precisei de olhar para ti e abrisses a gaveta de que perdi a chave.

lindo lindo.

J.MARTINS disse...

Hei-de voltar a pegar na caneta...
Obrigado M.