9 de Agosto de 2009

Além Fronteiras (ou o outro lado do retrato)

Somália - base do Acampamento Médico do Nordeste,
783º Dia:

No decote do Vale de Berbera, houve um tempo em que um enorme lago nutria a região de Dohmma. Hoje, a seca semeada no solo árido e a temperatura insuportável do ar obrigam a que a água se esconda sob a terra pó de tijolo. A paisagem testemunha a ausência de chuva e a escassez de alimento - árvores de galhos duros com espinhos em vez de frutos e arbustos rasteiros despidos de qualquer folhagem, exibindo o seu esqueleto de ramificações incendiadas pela coloração vermelha e castanha. Uma fortaleza rochosa nas antigas margens abriga trabalhadores, gerações de corpos negros e mirrados que se entregam de rosto caído à única vida que têm disponível. Todas as manhãs, iluminados pela luz prateada que antecede o nascer do Sol, descem as encostas escarpadas, lembrando demónios perdidos cujas formas, há muito desumanizadas, assentam num tripé de raízes de coca, carne seca e escaras que não cicatrizam, e dirigem-se aos poços escavados no fundo liso e cortado do antigo lago. “Chansons du travail”, compostas por palavras sopradas na língua mãe – o Maasai - que, misturando-se com o ruído de pás que dissecam o solo insípido, marcam o ritmo exigido para um trabalho síncrono na procura e manutenção da pouca água que resta nesses poços a que ancoraram a vida.

Recordo o dia em que conheci Márhak-Oong. Magro, de cabelo branco ralo, descascava, com as unhas desproporcionadas, bagas pálidas e desprovidas de sumo. Desviou o olhar do horizonte agreste e fitou-me sem qualquer expressão no rosto. Os seus olhos não reflectiam curiosidade, medo ou sequer interesse – dois botões negros e baços, sem reflexos, sem fé. Trazia a carne dos músculos agarrada aos ossos pelos farrapos de couro animal e redes de algodão cru com que escondia a desnutrição do corpo imundo como a peste.

Tudo correu mal. O tom do objectivo com que desculpámos a realização deste projecto era demasiado agudo. O preço era muito alto, mais do que imaginei. Quando cheguei, trazia a mochila carregada de esperanças e a miragem de observar, corrigir, ensinar e cuidar, plantar um novo destino nos resquícios de alma desta gente. No entanto, com o desenrolar dos dias, a criação de um posto de primeiros socorros, uma mera maqueta de hospital local, revelou-se um fracasso. O caos que aqui encontrei há quase dois anos era enorme. Tão profundo e desordenado que julgo não o conseguir colocar nesta carta. Era vermelho, negro e corrosivo. Mas dantes tínhamos água, conseguíamos viver aqui. Havia riso, crianças e um povo. Agora... nenhum olhar, resta-nos tentar sobreviver nesta terra doente e desidratada.
Tenho a saliva coagulada, uma papa azeda que não me permite sequer pensar em engolir. À medida que o sol sobe, alinhando-se verticalmente com a areia branca virgem de sombras, sinto borbulhar a pele, qual papel queimado e rasgado pelo simples toque da pouca vaselina que nos resta. Vive-se numa agonia que me entorpece a visão fantástica que tinha de África. Nada mais errado. As fotos a preto e branco e os relatos porque me apaixonei, horas a fio na biblioteca de Lisboa, nada valem mais do que cinzas e mentiras perante a experiência de (con)vivência nesta terra não-lógica e inabitável onde o Homem, o ser humano como espécie, caminha inevitavelmente para a extinção…

Deitado e paralisado pela polio, uma epidemia imensa que aqui é lei, fecho as pálpebras e regresso à nossa cama, aos meus apontamentos e às tuas mãos… (Silêncio).


(fotografia: "Red Cross in Africa")


4 comentários:

Patricia disse...

O teu blog é o melhor amigo das minhas insónias!

Anónimo disse...

Quero mais capítulos "Além Fronteiras" !!! :)

Bia*

Kahkba disse...

Obrigada por teres reaberto :) Realmente valeu a pena ! Avisa quando tiveres nova morada **

Keila Costa disse...

Tocante...essas visões do mundo que não temos...até que um dia ela se revela na face verdadeira...nesse desnudar incompreensível, como uma dor latente, numa convivência cega...nós cegos...Bela escrita! Triste realidade...Abraços